EFÊMERO

Esse ensaio nasceu de um Trabalho de Conclusão de Curso – Fotografia e Arte da Escola Câmera Criativa em Florianópolis. Nesta pesquisa busco juntar os fragmentos da minha existência, estilhaçada devido ao efeito do uso constante de fármacos, as trocas frequentes de medicamentos e as continuas, e necessárias, adaptações do corpo…


Estar nesse lugar em que cada fração de tempo assemelha-se a um buraco negro que suga tudo ao seu entorno, consumindo energia e massa. Inseguranças e medos tumultuam minha mente.  Vejo-me tal qual uma peça que não se encaixa de forma alguma no jogo de quebra cabeça da vida.
Já não me reconheço, desfaço-me. Sou poeira, e nada mais. Meus ossos, órgãos e pele não tem conexão mais com corpo, ou mente. Flutuo. Estática, não me locomovo. Paralisada por frustrações devido aos efeitos colaterais. Exaustão!
Desejo dormir, mas com medo de acordar. Acordo e volto a dormir, desconfortavelmente, haja vista que a única possibilidade que vislumbro é a certa de jamais alcançar estabilidade emocional.

Em Efêmero rememoro constantemente: somos temporários, momentâneos, feitos de ciclos…. Tal qual a vida; tudo é transitório, somos nada, apenas estamos, provisoriamente.


TRADUZIR-SE FERREIRA GULLAR

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?

| 2020 |